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Como Sobreviver a uma Família Invasiva?





Em algum momento da sua vida você já percebeu que os seus pais não te respeitaram e invadiram a sua privacidade? Que por trás de toda boa intenção, ainda há uma tentativa de controle sobre o que você faz, e como você administra a sua vida? Esse é um assunto delicado e ao mesmo tempo muito importante, pois muitas vezes não percebemos de forma clara esse comportamento que acaba interferindo e comprometendo a nossa vida familiar, amorosa, profissional e social.

Quem tem filhos sabe como pode ser desafiador deixar que os mesmos façam escolhas sozinhos, os pais se acostumam, desde o nascimento de seus filhos, a cuidar de tudo, fazendo o possível para que eles estejam seguros. Mas a questão é que à medida que eles crescem, e começam a fazer escolhas próprias, como as roupas que usam, o que querem comer, e os amigos que se relacionam; nem sempre essas escolhas são bem recebidas pelos pais.

Famílias que possuem uma dinâmica saudável, essa relação vai sendo estabelecida com muito cuidado e carinho, ao mesmo tempo que os filhos vão se conhecendo e explorando novas possibilidades, os pais estarão ali por perto para orientar, conversar, dar alguns limites, mas também vão liberando, respeitando e acolhendo as novas escolhas que os filhos fazem para que se sintam seguros em geral.

Mas nem sempre esse processo acontece de forma sutil. Alguns pais sentem muito medo de lidar com esse momento, e começam a se sentirem inúteis, excluídos, pois vão perdendo a função que exerceram desde que o filho nasceu. O medo se mistura em meio a tantos conflitos e muitos pais seguem ignorando esses sentimentos, e continuam tentando interferir na vida dos filhos em nome do amor, mesmo que isso traga conflitos e dor no relacionamento com eles.

O fato é que alguns pais ignoram a necessidade dos filhos terem seus próprios interesses, pois estão tão centrados em seus próprios medos e necessidades que ignoram o dos filhos, não confiam em suas escolhas e desvalidam as suas conquistas, justamente com o intuito, mesmo que inconsciente, de controlar as ações dos filhos. Muitos pais não conseguem perceber que há limites que não devem ser ultrapassados, e não compreendem a diferença entre amor, carência, preocupação, respeito e cuidado, pois provavelmente também passaram por situações semelhantes, aprenderam a agir de forma invasiva com seus cuidadores e apenas reproduzem esse modelo.

Dentro desse contexto tão complexo e patológico a sobrevivência dos filhos se torna um trabalho exaustivo, pois necessita de uma quantidade imensa de energia tentando defender de ataques verbais, escapar do controle e respirar com tranquilidade. Infelizmente é raro conseguir que o outro perceba as suas ações, mesmo que explique e tente lhe mostrar o quanto é dolorido conviver com essas situações, pois normalmente quem é invasivo, não gosta de se sentir limitado, e está sempre agindo de acordo com o próprio desejo e inseguranças.

Quando uma pessoa percebe estar vivendo em um ambiente assim, é importante desenvolver comportamentos que lhe protejam, e infelizmente quanto menos se expor e conseguir dar limites, mais conseguirá delimitar o seu espaço. Apesar de parecer ser fácil seguir essas duas pequenas orientações, na verdade é um desafio muito grande, pois além de ter que aprender a se fazer respeitar, o filho terá que lidar com toda situação de forma a não se afetar pelos comentários e comportamentos dos familiares.

Entender e aceitar que cada pessoa coloca para fora o seu interno, é uma dificuldade que todos nós enfrentamos, conseguir olhar para o que o outro projeta em nós e deixar passar sem nos identificar, é um grande desafio, e é quando aprendemos a manejar essa questão que conseguimos viver em paz e seguir o nosso caminho com confiança.

Toda família por mais disfuncional que seja nos traz muita aprendizagem, são essas relações que nos preparam para o mundo, para lidarmos com as intempéries da vida, e quando desenvolvemos essa consciência passamos a aceitar e transitar melhor por essa realidade. A terapia é um caminho importante nesse processo, porque visa a fortalecer seu eu interno para que desenvolva ferramentas para transitar com mais facilidade por situações difíceis a que somos expostos, pois muitas vezes sozinhos não conseguimos ter coragem, força e clareza para mudar a nossa realidade.


Fonte: Estadão

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