• Dra. Priscilla Sodré

Disfunção Sexual Feminina: Mais que um Tabu Social



Hoje vou abordar um tema que afeta inúmeros casais e que ainda pode ser tabu para muitos: as disfunções sexuais! Como sou ginecologista, falarei sobre as disfunções sexuais femininas, mas saibam os rapazes que a disfunção sexual masculina também é muito comum e tem tratamento. Não sofram desnecessariamente, procurem ajuda de profissionais capacitados!


Vamos então falar um pouquinho sobre a disfunção sexual feminina. Esse é um assunto extremamente importante, que afeta 40% das mulheres no mundo, em alguma fase de suas vidas. No Brasil, essa queixa é comum entre 13-75% das mulheres, variando conforme o estudo.


O que é disfunção sexual?


A disfunção sexual (DS) relaciona-se à dificuldade em sentir satisfação sexual em atividades sexuais não coercivas, isso é, quando há consentimento de ambas as partes. Para ser caracterizada como DS é necessário ser recorrente, durar vários meses e ser acompanhada de sofrimento. Portanto, os critérios para diagnóstico envolvem queixa de disfunção frequente, que dura seis meses ou mais e que causa desconforto (sofrimento) pessoal. Isso significa que, mesmo que a mulher se refira à uma alteração na resposta sexual, o médico só a investigará quando ela disser que isto a incomoda e que ela deseja que se faça uma abordagem.

Vale ressaltar aqui que as expectativas irreais de um dos parceiros, a discrepância do desejo sexual entre parceiros e a estimulação sexual inadequada não integram os critérios válidos para o diagnóstico de DS.

É importante salientar que o padrão de funcionamento sexual adequado é subjetivo, e é definido pelo próprio indivíduo como sendo satisfatório ou não. Vale destacar que não existe um padrão normativo que classifique a função sexual como normal ou anormal.


Muitas vezes os mitos e crenças sobre a sexualidade e o orgasmo feminino podem prejudicar a vida sexual de muitos casais. Aqui vão alguns exemplos de “fake news” que são responsáveis por muito sofrimento e angústias desnecessários:

  • Há diferenças entre orgasmo vaginal e o clitoridiano;

  • O casal precisa chegar ao orgasmo junto;

  • Se não tiver orgasmo, a relação não foi boa;

  • As mulheres demoram mais a sentir excitação e a atingir o orgasmo;

  • As mulheres podem e devem ter orgasmos múltiplos;

  • O homem é responsável pelo prazer da mulher;

  • A mulher ejacula durante o orgasmo;

  • A mulher deve ter orgasmo só com o sexo pênis-vagina.

Não caiam nessa, a sexualidade é muito mais do que isso! O que importa é a satisfação do casal. A disfunção só ocorre quando há insatisfação.


Como a disfunção sexual pode se apresentar?


Segundo a 11ª edição da Classificação Internacional das Doenças (CID-11), as principais DSs são:

  • desejo sexual hipoativo (DSH);

  • disfunção de excitação e disfunção orgásmica;

  • disfunção de dor na relação sexual, que se divide em três principais situações:

1-Vulvodínia- é a dor na vulva sem causa aparente, com duração de pelo menos três meses. Pode acometer toda a vulva ou ser localizada, e o surgimento da dor pode ser provocado pelo toque ou ser espontânea, pode ser constante ou intermitente.

2-Vaginismo- é a dificuldade e dor na penetração devido à contração involuntária dos músculos ao redor da vagina e dessa forma estreitam muito a entrada da vagina, dificultando ou impedindo a penetração. É caracterizado por pelo menos um dos seguintes critérios: i) dificuldade acentuada e persistente ou recorrente na penetração devido a contração involuntária ou tensão dos músculos do assoalho pélvico (MAPs) durante a tentativa de penetração; ii) dor vulvovaginal ou pélvica acentuada e persistente ou recorrente durante a penetração; iii) medo ou ansiedade acentuada ou persistente ou recorrente de dor vulvovaginal ou pélvica em antecipação, durante a penetração ou como resultado dela.

3-Dispareunia- é caracterizado por dor ou desconforto genital recorrente que ocorre antes, durante ou após a relação sexual ou penetração vaginal superficial ou profunda, relacionada a uma causa física identificável, como por exemplo- síndrome genitourinária da menopausa e endometriose.


Como é o tratamento da DS?


A disfunção sexual feminina é reconhecidamente de origem multifatorial. É muito importante uma avaliação inicial e um diagnóstico preciso da causa ou das causas desse transtorno. O tratamento dependerá da origem da disfunção. O uso de medicamentos está indicado para o tratamento das queixas sexuais de origem biológica e psiquica, mas não são necessariamente indicadas para tratamento de disfunções de causas psicossociais, comportamentais e socioculturais.


O tratamento psicoterápico das disfunções do orgasmo consiste, sobretudo, em reestruturar as inúmeras crenças e os mitos relacionados ao orgasmo, bem como orientar para uma estimulação adequada e o controle da ansiedade. A terapia sexual é um importante aspecto da sexologia, sendo indicada para o tratamento dos aspectos subjetivos relacionados aos desconfortos na esfera da sexualidade. Pode-se utilizar uma de várias ferramentas de diversas linhas de pensamento, desde que tenha natureza científica e seja aplicada por profissionais com o devido treinamento.


A disfunção sexual é um tema muito extenso e complexo. O meu objetivo aqui foi colocar uma luz sobre esse problema tão comum para que fique claro que existem tratamentos e soluções para cada situação. Procurem sempre um profissional de saúde qualificado para que você seja tratado adequadamente!





BIbliografia-

LaraLA, Pereira JM. Disfunção sexual: conceito, causas e diagnóstico. In: Saúde sexual da mulher: como abordar a disfunção sexual feminina no consultório ginecológico. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2022. Cap. 1. p.1-4.

Lara LA, França SS. Anamnese sexológica. In: Saúde sexual da mulher: como abordar a disfunção sexual feminina no consultório ginecológico. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2022. Cap. 4. p.18-23.

Oliveira FF, Lara LA. Tratamento farmacológico das disfunções sexuais femininas. In: Saúde sexual da mulher: como abordar a disfunção sexual feminina no consultório ginecológico. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2022. Cap. 5. p.24-9.

Lara LA, Oliveira FF. Distúrbio da dor sexual: dispareunia, vaginismo e vulvodínia. In: Saúde sexual da mulher: como abordar a disfunção sexual feminina no consultório ginecológico. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2022. Cap. 7. p.36-43.

Rufino AC. Técnicas para manejo das disfunções sexuais psíquicas. In: Saúde sexual da mulher: como abordar a disfunção sexual feminina no consultório ginecológico. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2022. Cap. 9. p.55-62.

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